"Parte dos fundos públicos tem de ir para a proteção antissísmica dos edifícios"

Para o geofísico e presidente do IPMA, Miguel Miranda, o maior problema é a falta de proteção antissísmica na região afetada

Houve uma série de sismos for-tes em diferentes locais do mundo, nos últimos dias. É coincidência ou há ligação entre eles?

Tem-se colocado a hipótese de poderem ocorrer vários sismos ao longo da mesma contraplaca, mas isso nunca foi provado. Portanto, a conclusão é a de que não há nenhuma relação entre esses sismos. No caso do que ocorreu ao largo de Peniche [a 19 de agosto], é até uma situação diferente porque não aconteceu numa zona de fronteira de placa, mas na falha da Nazaré, que é muito antiga. De vez em quando ela é retomada e, em geral, não causa sismos muito acima de cinco graus [na escala de Richter].

Portanto, é coincidência.

É. O que é importante neste sismo de Itália é começar a haver a consciência de que um sismo de magnitude perto de seis pode ter implicações desastrosas se acontecer perto de zonas habitadas.

Este aconteceu ali na zona, em profundidade.

Foi a cinco quilómetros de profundidade, o que é muito pouco. Temos locais no país, por exemplo nos Açores, em que podemos ter sismos deste tipo. O de Benavente, em 1909, que teve este tipo de magnitude, ocorreu muito perto da povoação e, por isso, foi muito destrutivo. Esta região de Itália é uma zona histórica, de cidades antigas, com uma construção que não pode resistir a acontecimentos deste tipo. A destruição é enorme e provavelmente a cidade vai ficar irreconhecível depois da reconstrução.

Já se devia ter olhado melhor para a construção naquela região de Itália?

Claro que sim. Mas não existe capacidade, nem política nem social, para fazer ações importantes de proteção sísmica fora das alturas em que há sismos.

Porquê?

Não há pressão mediática e existem outras prioridades para os dinheiros públicos. Mas é óbvio que nas épocas de calma sísmica deviam ser feitas intervenções de proteção. Em Portugal, por exemplo, era importante saber isto: de todos os investimentos públicos previstos até 2020 no programa operacional [fundos europeus], quantos vão para prevenção antissísmica? Provavelmente nenhum. Sendo Lisboa uma região de risco sísmico, e para a qual o programa operacional prevê contrapartidas muito baixas, era preciso pensar noutra aproximação para a proteção antissísmica.

Pode haver mais discussão sobre isso agora?

Não sei o que é preciso mais para que se comece a pensar que é necessário, nas regiões de sismicidade ativa na Europa, haver uma intervenção de engenharia como a que existe nos Estados Unidos, na Califórnia, ou no Japão.

O que é preciso fazer, então?

A minha opinião é que alguns fundos do investimento público têm de ser usados em proteção antissísmica. Pode não se fazer tudo, até porque os custos seriam enormes, mas pelo menos fazer intervenções onde haja maior risco para as populações ou para o património mais importante. Em Portugal as regiões de Lisboa e do Algarve são as mais evidentes.

E em Itália?

Itália tem várias regiões sísmicas muito importantes, uma das quais é esta. Mas há mais. No Sul, por exemplo, a Sicília é muitíssimo ativa, tanto do ponto de vista sísmico como vulcânico.

Qual é o mecanismo que desencadeia os sismos no centro de Itália?

Há ali uma situação geométrica muito complicada entre a placa de África e a da Eurásia. A placa africana mergulha sob a da Eurásia na zona da Grécia, mas no centro de Itália, ao longo dos Apeninos, há um processo de abertura que causa estes sismos todos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Diário de Notícias

26/08/2016