Portugal já é beneficiário líquido dos fundos da UE para a ciência

Em dois anos, o Horizonte 2020, programa europeu de apoio à ciência e inovação, aprovou 887 projetos nacionais. E há 258 projetos de consórcios europeus coordenados por Portugal.

Portugal conseguiu captar 403 milhões de euros em fundos do programa-quadro europeu de apoio à ciência Horizonte 2020 desde 2014, ou seja, 1,64% do total colocado a concurso, tornando-se beneficiário líquido, porque contribuíu apenas com 302 milhões de euros (1,23%) para o orçamento global deste programa.   Há 258 projetos europeus coordenados por Portugal no âmbito de consórcios de instituições científicas e empresas de vários países que foram apoiados pelo H2020. O nosso país está envolvido num total de 887 projetos — no programa-quadro anterior (2007-2013) eram 666 nos primeiros dois anos — e há 1292 participações de entidades nacionais, como centros de investigação, empresas e instituições do ensino superior.   Os números do balanço dos primeiros dois anos do programa foram apresentados ontem, segunda-feira, no Centro de Congressos do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, num evento que contou com as intervenções do comissário europeu para a investigação e inovação, Carlos Moedas, do ministro da Ciência, Manuel Heitor, do presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), Paulo Ferrão, e do presidente da Comissão Parlamentar de Educação e Ciência, Alexandre Quintanilha.    As entidades do chamado Sistema Científico e Tecnológico Nacional participaram em projetos que representam mais de 63% do volume total de financiamento no H2020 (255 milhões de euros), sendo o ranking das universidades liderado pela Universidade de Lisboa (65 milhões). Seguem-se as universidades do Porto (37 milhões), Nova de Lisboa (32 milhões), Minho (24 milhões) e Coimbra (21 milhões).   Os cientistas portugueses conseguiram em dois anos ganhar 39 bolsas milionárias do Conselho Europeu de Investigação (ERC), isto é, mais três bolsas do que nos sete anos de todo o programa-quadro anterior, e 71 ações do programa Marie Curie. As bolsas do ERC são bolsas individuais superiores a um milhão de euros destinadas a projetos de investigação fundamental, na fronteira do conhecimento. As ações Marie Curie apoiam a formação, investigação e mobilidade, tanto a nível transnacional como intersectorial, de investigadores altamente qualificados, na Europa e no resto do mundo.   DO COMBATE ÀS INFEÇÕES ÀS JANELAS INTELIGENTES  As PME tiveram 56 projetos aprovados pelo programa “SME Instrument”. Até agora participaram 250 empresas portuguesas no Horizonte 2020 (169 são PME), totalizando 25% do financiamento captado por entidades nacionais. O maior sucesso dos projetos nacionais no Horizonte 2020 tem sido em áreas como a energia, a ação climática ou a bioeconomia.  Entre os 258 projetos coordenados por Portugal destacam-se o FAST-bact (3,6 milhões de euros), coordenado pela empresa “start up” FASTinov, que pretende desenvolver um “kit” de diagnóstico clínico para ajudar a determinar, em poucas horas (em vez de um a dois dias dos sistemas atuais), o antibiótico mais adequado ao combate a uma infeção, de acordo com a suscetibilidade das bactérias.   Outro projeto, o Civitas Destinations, coordenado pela empresa Horários do Funchal, desenvolve soluções integradas de mobilidade sustentável e de melhoria da eficiência dos sistemas de transporte em seis ilhas europeias, visando aumentar a atratividade turística e a qualidade de vida dos residentes e turistas.   Um dos principais exemplos referidos pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia é o projeto TransFlexTeg (4 milhões de euros), coordenado pelo Uninova (Instituto de Desenvolvimento de Novas Tecnologias, da Universidade Nova de Lisboa), que desenvolve janelas e paredes flexíveis inteligentes para conversão de energia térmica em elétrica, com sensores ambientais e funcionalidades de comunicações sem fios. A tecnologia permitirá reduzir em mais de 25% o consumo de energia elétrica em edifícios residenciais e de escritórios.   No Centro de Congressos do Instituto Superior Técnico (IST) foram também apresentados alguns exemplos dos 60 projetos que estão a ser desenvolvidos no âmbito do Horizonte 2020 por esta escola de engenharia, que envolvem um financiamento global de 23 milhões de euros. E também foram dados a conhecer projetos do Laboratório Associado INESC-TEC (Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência) e de empresas como a EDP, Grupo A. Silva Matos, Ubiwhere e Tekever.   CARLOS MOEDAS: “HÁ PROBLEMAS QUE NÃO SE RESOLVEM A NÍVEL NACIONAL" O comissário europeu Carlos Moedas sublinhou na sua intervenção no IST que “o facto de Portugal passar a ser beneficiário líquido dos fundos do Horizonte 2020 é uma boa notícia”, porque mostra que o país “tem capacidade crescente para atrair e para participar em projetos de investigação europeus”. E congratulou-se também pelas 39 bolsas ERC conquistadas por Portugal, “porque são uma espécie de mini Prémios Nobel da ciência”. Carlos Moedas lembrou que “há problemas científicos que não se podem resolver somente a nível nacional, como os que estão associados ao clima, energia, cibersegurança ou epidemias”. Por isso, faz cada vez mais sentido criar consórcios europeus nos projetos financiados pelo H2020, “porque não teríamos escala de outra maneira”. E mais do que o financiamento, “é a capacidade de colaborar numa rede única, de grande alcance, que verdadeiramente interessa”.   O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, afirmou por sua vez que “vale a pena ser europeu” e revelou que no programa H2020, Portugal “registou uma taxa de sucesso de 13,4% nos projetos que apresentou a concurso, quando a média europeia é de 12,6%”. O objetivo “é termos no futuro 2% do financiamento europeu para a ciência colocado a concurso” (hoje Portugal tem 1,64%), disse o governante, salientando que os projetos nacionais “também acrescentam valor a nível europeu”.   Sobre os próximos anos do programa H2020, Manuel Heitor considerou que “há desafios críticos, porque a UE está mais divergente entre os estados-membros do sul e do norte da Europa, o que significa que Portugal tem de fazer um esforço suplementar na segunda fase do Horizonte 2020”. O projeto europeu “não está ganho, precisa cada vez de mais ciência e por isso Portugal tem de garantir mais fundos comunitários até 2020”.   Como revelou Carlos Moedas, “nos últimos 15 anos cerca de 60% do crescimento económico na Europa foi gerado pela ciência e pelo conhecimento”. E o H2020 “é o maior programa de ciência e inovação do mundo”.               Fonte: Expresso
21/02/2017