Portugal tem de criar as condições ideais para o investimento

Entrevista com Francisco Lacerda, presidente da Cotec. A meio do mandato o empresário acredita que só a inovação pode trazer desenvolvimento ao país.

Quando assumiu a presidência da Cotec, em junho de 2015, estabeleceu um conjunto de caminhos. Quais são os desafios da Associação Empresarial para a Inovação?

Nesta fase achámos que devíamos refocar-nos numa dimensão de cooperação estratégica e penso que conseguimos gerar de novo uma maior aproximação aos associados, através dos seus gestores de topo. Isto está na essência da Cotec: ter intervenção ao mais alto nível, porque ao falar mais com associados temos uma consciência mais imediata das suas necessidades. Há ainda uma interlocução fácil e positiva com quem trata das políticas públicas em Portugal, o governo - e tem sido fácil trabalhar com este governo em várias questões, como o Indústria 4.0, em que estamos envolvidos. Também temos privilegiado mais o desenvolvimento do eixo das Cotec Europa numa lógica de pensar nas questões comuns e tratá-las ao nível de quem as decide, que é a Comissão Europeia.

Qual é a relevância do trabalho da Cotec a nível da Indústria 4.0?

Temos muito trabalho avançado em conjunto com o governo e com a Deloitte, nossa associada: identificámos clusters que quiseram ser analisados e questões transversais importantes nesta lógica do que se pode fazer para que Portugal acelere a sua entrada na Indústria 4.0 e estamos a preparar-nos para coordenar a fase de implementação operacional numa lógica definida pelo governo. Os grandes objetivos são acelerar a incorporação dos conceitos e da prática da Indústria 4.0 nas empresas, dar visibilidade internacional ao setor das empresas portuguesas que têm tecnologias para este efeito e promover o país como localização competitiva para o investimento em projetos de inovação. Até ao fim do ano será feita a plataforma - é um tema que será liderado pelo governo nesta fase, mas cujos efeitos e trabalho concreto se prolongarão nos próximos anos. Para Portugal estar na frente deste comboio é essencial a colaboração entre empresas, mas também entre empresas e instituições públicas.

De que forma?

Há três aspetos fundamentais. O primeiro é a normalização, que tem de existir para que os sistemas falem uns com os outros - isso faz-se a nível europeu, portanto é importante a colaboração das empresas em Portugal com outras plataformas e organismos de normalização. Outro aspeto é a cibersegurança: à medida que vamos abrindo sistemas, temos riscos que têm de ser geridos. O terceiro é sensibilizar os gestores de programas públicos de incentivo e apoio à inovação para os problemas que afetam a competitividade, para que os organismos públicos possam distinguir o que é crítico e é preciso apoiar - porque esses projetos de inovação têm uma enorme incerteza tecnológica. As questões da transformação digital e Indústria 4.0 estão na ordem do dia, estamos permanentemente a pensar sobre elas. Por isso lançámos há uns meses os almoços prospetivos Cotec, que reúnem uma dúzia de CEO de empresas em volta de um tema - na semana passada, foi o CEO Dialogue, com o apoio da Nokia, para provocar um debate entre oito CEO de grandes empresas sobre as condições de transição tecnológica, que traz questões de infraestruturas de redes digitais 5D e desafios a estes modelos de negócio.

A inovação tecnológica é um pilar fundamental para a Cotec?

A inovação é a única coisa capaz de desenvolver fortemente qualquer tecido empresarial e apoiar o desenvolvimento da economia de um país ou região. A aposta é exatamente em cima disto. Portugal, num ciclo em que o investimento contraiu, pelas razões que todos conhecemos, tem necessidade adicional de criar condições ideais para o investimento. Que seja tão inovador e tecnológico quanto possível.

Mas como é que isso se potencia?

Na parte que podemos influenciar, temos estado a trabalhar num conjunto de ideias. Há uma consciencialização das empresas de que ao voltar aos seus ciclos de investimento - e não estou a dizer que isso já esteja a acontecer - a despesa privada em investigação e desenvolvimento voltará a crescer para níveis em que Portugal esteve até há meia dúzia de anos. E há caminho a percorrer mesmo até à paridade com os países das outras Cotec - Espanha e Itália.

Temos de competir através de qualidade e diferenciação?

O objetivo da Cotec, que é também seguramente um objetivo nacional, é contribuir para termos uma posição competitiva mais alta na cadeia do valor acrescentado e com isso poder criar bons empregos, de qualidade, remunerados adequadamente. Para isso, é preciso paradigmas diferentes dos que aconteceram no passado. O investimento inovador, com base em tecnologia, é claramente um aspeto e estamos a falar com os associados para tentar motivar um aumento dessa realidade, assim que os associados entendam haver condições para investir. Depois há uma segunda área, que passa pelo investimento e o crescimento das empresas. Temos as PME, que têm uma série de apoios, e as grandes empresas, que são as mesmas há anos. Mas há ali um meio-termo...

As midcaps têm dificuldades?

É uma mudança demasiado brusca. Há aqui uma preocupação, até espelhada em documentos como a estrutura de missão para a recapitalização, de tentar ir progressivamente criando condições mais favoráveis para as midcaps. As empresas têm de crescer para ganhar relevância e com isso o país ter cada vez mais peso nas cadeias de valor internacionais em que as empresas competitivas se devem incluir. Uma PME pode ter projetos apoiados pelos vários mecanismos que existem, muitos deles de raiz europeia, a 70% ou 80%, mas quando passa a midcap perde os apoios de um dia para o outro. Há algo a fazer para apoiar esse crescimento, criar uma boa base de empresas que não são só as grandes nem são só PME. São empresas que crescem, têm modelos de desenvolvimento competitivos, ambição e vontade de ocupar o seu espaço.

A Cotec tem aqui um papel relevante de sensibilização do governo? Há conversas nesse sentido?

A Cotec, pelas suas características e reconhecimento, tem essa capacidade de interagir e falar com o governo. Faz parte da nossa missão estudar este género de assuntos, procurar soluções, propô-las e chamar a atenção para as suas vantagens. Estamos a trabalhar nesta vertente de diminuir o fenómeno das médias empresas já com relevo que sentem dificuldades em crescer ou em ser apoiadas nesse crescimento.

O que é preciso para incentivar as midcaps?

O primeiro incentivo é a ambição: as empresas quererem ser maiores e continuarem a crescer. Depois, é preciso ter uma estrutura de gestão profissional, porque vender dez milhões ou cem milhões é muito diferente. E, por último, ter o capital necessário para continuar a alimentar os projetos. A recapitalização das empresas não é uma vontade, é uma necessidade, e é preciso complementar o capital público com o privado. As empresas têm de ter capital privado e depois o governo, através do Portugal 2020, garante apoios complementares. Mas é preciso confiança para que esse capital surja - não só o que há em Portugal, que não é muito, mas também estrangeiro, mostrando que há boas empresas aqui, que inovam e podem crescer.

Que impacto pode ter na economia o crescimento de empresas para outra dimensão?

Estamos convencidos de que há um valor grande a ser criado e estamos a fazer um estudo com a Deloitte para ter dados mais objetivos. A seu tempo apresentaremos resultados.

O que é que fala para dar confiança aos investidores?

É um facto que o investimento não arranca. Não sei exatamente porquê, mas os dados mostram que não existe uma confiança generalizada e há trabalho a ser feito para mudar essa perceção. A realidade é fundamental, mas também é preciso ter a perceção de que o país acolhe bem o investimento. E às vezes há mensagens contraditórias.

Nomeadamente estarmos sempre a mexer nos impostos?

A falta de estabilidade fiscal é algo que deixa desconfortável quem está a tomar decisões a um prazo mais longo. E nós competimos com muitos outros países. Temos boas condições para atrair investimento, mas isso ainda não se está a ver. Oxalá se consiga encontrar esse caldo de confiança para termos um movimento parecido com o que se tem verificado no turismo.

A Cotec tem apostado na partilha de experiências de empresas.

Temos essa capacidade de pôr as empresas a falar entre si, e é relevante porque muitas questões são transversais, independentes dos setores. Entre as várias Cotec estamos a trabalhar também para aumentar a troca de experiências. O foco principal é a partilha de conhecimentos e a identificação dos temas relevantes no ciclo em que estamos e no que se avizinha, e provocar reflexão e trabalho.

Um deles é a economia circular?

É claramente. A Comissão Europeia lançou recentemente o plano de ação para a economia circular, que ao reaproveitar os recursos também vai ao encontro dos compromissos ambientais que Portugal e outros países assumiram. Precisamente porque a economia circular é uma prioridade - temos empresas portuguesas já com papéis importantes nesta área, que vai transformar todos os modelos de negócio -, elegemos este como o tema do nosso próximo encontro nacional de inovação, em novembro. Convidámos para speaker principal Ellen MacArthur (velejadora britânica que em 2010 criou uma fundação para fomentar a transição para a economia circular), vamos ter uma exposição de projetos de colaboração em investigação e desenvolvimento de 15 clusters que têm trabalhado nessa vertente, vamos contar com a presença do Presidente da República e entregar os prémios PME Inovação e Produto Inovação. Tudo isto à volta da economia circular, que é também o tema da próxima Cotec Europa, no final do ano.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Diário de Notícias

24/10/2016